Se queremos que os nossos filhos partilhem o que sentem ou peçam desculpa quando erram, também devemos fazer o mesmo.

16 de Maio, 2025por Clissol
A parentalidade não é sobre ser perfeito, mas sobre ser genuíno. Ao demonstrarmos comportamentos como autorreflexão e humildade, ensinamos aos nossos filhos a importância da comunicação emocional e da responsabilidade. Quando admitimos os nossos erros e pedimos desculpa, criamos um ambiente seguro onde eles se sentem à vontade para expressar as suas emoções sem medo de julgamento. Reconhecer os nossos erros promove empatia e uma conexão verdadeira, permitindo que eles sigam o nosso exemplo. A chave está na coerência nas nossas ações, que servem de base para uma educação emocional saudável. Ensinar a regulação emocional começa com o que fazemos e não apenas com o que dizemos. Contudo, como explica a psicóloga clínica, Joana Veloso, este processo não é simples, principalmente quando lidamos com as pressões externas da sociedade e com a idealização da “parentalidade perfeita”.
https://clissol.pt/wp-content/uploads/2025/05/jveloso1.jpg

Quais são os sinais de alerta de que uma criança possa estar a enfrentar dificuldades emocionais ou psicológicas?

Em primeiro lugar, é importante compreender que a infância é uma fase de aprendizagem, crescimento e adaptação a diversos estímulos internos e externos. Se para os adultos já é difícil gerir e expressar sentimentos, imagine-se para uma criança que ainda está a descobrir o mundo. Assim, os sinais de alerta tendem a ser mais comportamentais. As famosas birras, por exemplo, podem ser manifestações das necessidades daquela criança e é fundamental entender essas reações, oferecendo-lhe ferramentas para lidar com o que sente.

Entre os sinais a que os pais devem estar atentos estão mudanças bruscas de humor, isolamento, alterações nos padrões de sono ou alimentação, regressão de comportamentos (como voltar a fazer chichi na cama), dificuldade de concentração, irritabilidade ou expressões frequentes de medo ou tristeza. Importante destacar que nenhum sinal isolado deve ser interpretado como um problema grave, mas quando estes persistem ou afetam o bem-estar da criança, é aconselhável procurar ajuda profissional. É essencial estar atento e conhecer bem a criança para compreender quando é necessário procurar apoio.

Que impacto têm as redes sociais na saúde mental dos mais novos?

É fundamental assumir as redes sociais como parte do nosso quotidiano, mas também precisamos de refletir sobre se as crianças têm maturidade suficiente para lidar com a enorme quantidade de informações e estímulos que a internet proporciona. Hoje em dia, a rapidez com que consumimos conteúdos, especialmente vídeos, é tão intensa que o nosso cérebro não tem capacidade para processar tanta informação de forma eficiente. A evolução digital está a uma velocidade que, muitas vezes, nos ultrapassa. Por isso, é essencial encontrar um equilíbrio e refletir nas possíveis consequências que esta nova era digital pode trazer.

As redes sociais podem ter tanto efeitos positivos como negativos. Por um lado, oferecem oportunidades para socialização e aprendizagem, mas, por outro, quando não são geridas de forma adequada, podem gerar ansiedade, baixa autoestima e até isolamento. Isto acontece especialmente quando surgem comparações constantes, cyberbullying ou uma exposição excessiva. As redes sociais apresentam frequentemente uma “vida perfeita”, o que pode criar uma falsa ilusão entre os adolescentes. Na adolescência, é importante que os jovens tenham a oportunidade de se expressar sobre o que veem e sentem, e que os pais estejam abertos para ouvir essas preocupações.

Além disso, é fundamental que as crianças e os adolescentes recebam orientação sobre como usar as redes sociais de forma equilibrada, e que os adultos estejam atentos ao impacto emocional que o uso dessas plataformas pode ter. Uma nota importante é que a violência no namoro tem vindo a aumentar, e dados recentes indicam que 60% da violência é exercida através do controlo das redes sociais e da manipulação. Assusta-me a normalização de certos comportamentos e atitudes entre namorados, algo que deve ser abordado com seriedade pelos pais e responsáveis.

De que forma o sentimento de culpa parental (particularmente nas mães) impacta a saúde mental?

Existem sentimentos que acompanham muitos pais e mães desde o primeiro momento — seja pela pressão que a sociedade impõe, seja pelo desejo genuíno de dar o melhor à criança que têm nos braços. No que diz respeito à igualdade de género, é importante reconhecer que, ainda hoje, a mãe é muitas vezes vista como a principal responsável pelos cuidados dos filhos, sendo quase “esperado” que se dedique a 100%.

Por isso, a culpa parental é um sentimento bastante comum, sobretudo entre as mães, que frequentemente sentem que deviam estar sempre presentes, sempre a fazer mais e melhor. No entanto, esta exigência constante pode tornar-se extremamente desgastante e até paralisante, contribuindo para ansiedade, exaustão emocional e, em casos mais graves, depressão. É fundamental perceber que não existe parentalidade perfeita — existe o melhor que conseguimos dar em cada momento. E que cuidar de nós próprios é, também, uma forma de cuidar dos nossos filhos. Partilhar responsabilidades e cuidados parentais é essencial para uma parentalidade mais equilibrada e saudável.

https://clissol.pt/wp-content/uploads/2025/05/jveloso2.jpg

Como evitar cair na armadilha da parentalidade perfeita?

Antes de mais, é importante questionar: o que significa, afinal, ser um “bom pai” ou uma “boa mãe”? Existe uma lista de critérios infalíveis a seguir? Claro que não. A parentalidade não é uma competição, nem uma performance.

Vivemos numa sociedade que valoriza o desempenho em todas as áreas — até na forma como educamos os nossos filhos. Mas ser um bom pai ou uma boa mãe não significa nunca falhar. Significa estar disponível, ser verdadeiro e criar um ambiente onde a criança se sinta segura, ouvida e valorizada. Aceitar as nossas imperfeições e praticar a autocompaixão são passos essenciais para vivermos uma parentalidade mais leve, mais realista e mais saudável.

O burnout parental é um tema cada vez mais falado. Como podemos reconhecê-lo e preveni-lo?

O burnout parental é uma forma de esgotamento emocional e físico associado às exigências constantes da parentalidade. Os sinais mais comuns incluem irritabilidade persistente, sensação de fracasso ou de não estar a conseguir dar resposta, distanciamento emocional dos filhos e perda de prazer nas rotinas familiares.

Reconhecer estes sinais é o primeiro passo para evitar consequências mais sérias. A prevenção passa por pedir ajuda, falar sobre o que se sente, dividir tarefas de forma justa, reservar tempo para si e, acima de tudo, aceitar que ser pai ou mãe também implica ter limites. Não somos máquinas — somos humanos a fazer o nosso melhor.

O que é a regulação emocional e como podemos ensiná-la aos nossos filhos desde pequenos?

A regulação emocional — ou inteligência emocional — é a capacidade de reconhecer, compreender e gerir as próprias emoções de forma equilibrada. Desde muito cedo, as crianças aprendem através do exemplo dos adultos que as rodeiam. Validar o que sentem, dar nome às emoções (“estás zangado”, “pareces triste”) e ensinar estratégias simples para lidar com elas (como respirar fundo, falar sobre o que aconteceu ou procurar conforto) são formas práticas de desenvolver esta competência fundamental para o bem-estar.

É essencial lembrar que os adultos são o espelho para os mais pequenos. Se queremos que os nossos filhos partilhem o que sentem ou peçam desculpa quando erram, também devemos fazer o mesmo: contar como foi o nosso dia, assumir os nossos erros e pedir desculpa quando necessário. Esta coerência dá segurança e cria um ambiente onde a criança sente que pode errar, aprender e crescer emocionalmente.

https://clissol.pt/wp-content/uploads/2025/05/jveloso3.jpg

O que fazer quando uma criança tem uma birra ou um ataque de raiva?

Uma birra é, muitas vezes, a forma que a criança encontra para expressar emoções fortes que ainda não sabe verbalizar ou controlar. Nessas alturas, o mais importante é que o adulto mantenha a calma — lembrando que a criança não está a ser “má”, mas sim a lutar com algo que não consegue gerir sozinha.

Evitar gritar ou castigar no momento da birra é essencial. O ideal é validar os sentimentos (“percebo que estás frustrado porque não conseguiste…”), oferecer presença e contenção, e só depois, quando a criança estiver mais tranquila, conversar sobre o que aconteceu. Juntos, podem pensar em formas diferentes de reagir da próxima vez. Este é um processo que exige paciência, consistência e empatia — tanto da criança como dos pais.

As atividades extracurriculares são importantes, mas muitas crianças têm pouco tempo livre. Como encontrar um bom equilíbrio?

As atividades extracurriculares devem ser uma mais-valia no crescimento da criança — não uma fonte de pressão ou cansaço. Brincar livremente, descansar e até experienciar o tédio são componentes fundamentais para o desenvolvimento emocional e cognitivo.

O tédio, muitas vezes desvalorizado, estimula a criatividade, a imaginação e a capacidade de resolver problemas. Hoje, com rotinas tão cheias, muitas crianças têm pouco ou mesmo tempo nenhum para criar, explorar ou simplesmente “não fazer nada”. E isso é uma perda real.

Mais importante do que a quantidade de atividades é a qualidade do tempo vivido. Observar sinais como cansaço excessivo, irritabilidade, desinteresse ou resistência às atividades pode ser um alerta para repensar a agenda. O equilíbrio está em respeitar o ritmo de cada criança e garantir que há espaço para ser apenas… criança.

Quando é que os pais devem considerar levar uma criança ao psicólogo?

O psicólogo não deve ser visto apenas como alguém que intervém em situações de crise. É, acima de tudo, um profissional que pode ajudar a prevenir, orientar e acompanhar o desenvolvimento saudável da criança.

Numa abordagem preventiva, os pais podem considerar procurar apoio psicológico a partir dos 3 anos — por exemplo, em fases de adaptação à escola ou em mudanças familiares importantes. Também por volta dos 5/6 anos, quando a criança entra no 1.º ciclo, pode ser útil consultar um psicólogo para ajudar na transição e garantir que tudo está bem do ponto de vista emocional e comportamental.

No caso da intervenção, o ideal é procurar ajuda sempre que houver sinais de sofrimento emocional persistente, comportamentos desajustados, mudanças bruscas no humor ou dificuldades que os pais não saibam como gerir. Muitas vezes, bastam algumas sessões para orientar a família, ajustar rotinas e dar à criança ferramentas para ultrapassar determinada fase.

Pedir ajuda não é sinal de falha — é um gesto de cuidado e responsabilidade.

Como é que a Psicologia entrou na sua vida?

Desde cedo senti uma curiosidade natural pelas pessoas: pelo que sentem, pensam e pela forma como lidam com os desafios. Sempre tive vontade de ajudar, e durante o meu processo de orientação vocacional, no 9.º ano, fui com a ideia de ser professora. Queria estar próxima das pessoas e fazer a diferença.

Foi aí que descobri a Psicologia — e tudo fez sentido. Encontrei uma área onde podia aliar a empatia ao conhecimento científico e acompanhar o outro de forma próxima, com impacto real na sua vida.

Mais tarde, a Neuropsicologia fascinou-me ainda mais. A possibilidade de compreender o funcionamento do cérebro e como este influencia emoções, comportamentos e aprendizagens — sobretudo em crianças e jovens — mostrou-me o quanto uma intervenção atempada pode transformar percursos e abrir novos caminhos.

Dra. Joana Veloso – Psicóloga.